Como Compor uma Música: da Melodia ao seu Acompanhamento - 5 Passos Práticos

Como podemos partir de uma ideia melódica simples, e transformá-la em algo mais rebuscado, ou em uma seção completa?




5 Passos Fundamentais

para você Compor uma Música

da Melodia ao seu Acompanhamento!




Sempre me surpreendo quando analiso alguma música dos grandes mestres!

É sempre uma coisa aqui, outra coisa lá para entrar em nossa formação.

Dessa vez aconteceu quando estava analisando o quarto movimento da primeira Sonata 1 de Beethoven (Op.2 N.1) (escute este trecho em 2min39s a 2min52s) para gravar o vídeo de percepção musical no YouTube (link para o meu canal: Carlos Correia).

Percebi que um determinado trecho dessa música (compassos de 22 a 34 da exposição da referida Sonata de Beethoven) parece ter sido construído de um modo diferente do habitual.

Daí eu tive a ideia de criar esse post mostrando uma coisa muito interessante.

Dada uma melodia, como transformá-la em seu próprio acompanhamento?

Neste exemplo, não se trata apenas de termos uma melodia e criar um acompanhamento qualquer, comum (como baixo de Alberti, ou algum outro tipo), mas extrair da própria melodia e transformá-la em seu próprio acompanhamento.

Melhor dizendo: vamos aprender como extrair o acompanhamento de sua própria melodia.

Curioso? Então, continue lendo.


Primeiramente, vejamos a melodia nua e crua, a que dará origem ao resto da nossa transformação (ao todo são 13 compassos):



O que fiz foi simplesmente tirar todas as notas "acrescentadas"  para ficarmos somente com o “essencial” (melodia simplificada).

Essa melodia, como pode ser vista, se encontra na região média e grave. Portanto, teremos que acrescentar as notas restantes acima destas.
Sim… Realmente é uma engenharia reversa!



Primeiro Passo


Vamos definir a harmonia da melodia.

É claro que não iremos criá-la, pois vamos reconstruir o pensamento de Beethoven, mas se você pegar uma melodia do zero, você terá que definir isso.

Como já sabemos a harmonia que usaremos, vou colocá-la aqui:




Apesar da nota láb e de fá# (c.1 a c.4) sugerirem, a primeira vista, outro acorde, vamos tratá-la como sendo a determinada aqui.

Estas notas darão uma dupla interpretação, o que poderíamos considerar sendo uma nota de passagem ou acordes de passagem.

Ainda com relação a harmonia dada (a apresentada na figura), posteriormente ela sofrerá uma ligeira modificação.

Mas esta modificação seria uma espécie de consequência advinda de uma melhor movimentação das vozes internas… Entenderá o que quero dizer no seu devido momento.


Segundo Passo


De posse da harmonia, vamos perceber a estrutura da melodia.

Escutando-a, podemos perceber facilmente 2 partes, que vamos chamar aqui de seção, isto é, a melodia tem 2 seções.

Cada seção ainda poderá ser dividida em duas partes, como indicado na imagem:




A seção 1 (em vermelho) vai do compasso 1 ao 5, e é dividida em 2 partes: parte 1 e parte 2.

A seção 2 (em azul) vai do compasso 5 ao 13, e também é dividida em 2 partes: parte 1 e parte 2.

Dividi a primeira seção em duas, pois sua segunda divisão (parte 2) será trabalhada de forma diferente da primeira. Assim, você perceberá melhor sua divisão interna.

É claro que em uma melodia nova, sem saber o resultado final, você é que deverá determinar, com sua experiência e intuição, as divisões internas.

Além disso, a harmonia inerente da melodia também é uma boa indicadora de como você poderá seccioná-la.


Terceiro Passo


Agora é que começa a brincadeira.

A primeira ideia que Beethoven traz é duplicar a melodia do baixo em uma voz superior em toda a primeira seção.

Façamos isso:


Na segunda seção da melodia, vamos fazer outra abordagem…

Na primeira parte da segunda seção, vamos colocar notas superiores em movimento descendente até coincidir com a nota sol, duas oitavas acima:



Você deve ter percebido que no início da frase as notas não descem diretamente, apenas tocam 2 vezes. Isso serve para fixar a harmonia.

É como se Beethoven tivesse começado de trás pra frente. Isto é, começou a determinar a nota sol do compasso 8, duas oitavas acima, como o ponto de destino, e então fosse subindo voltando pra trás, até chegar em um momento que as notas deveriam afirmar a harmonia, já que a melodia na voz inferior (que é a nossa melodia inicial) estava saltando.

Assim, enquanto uma voz está saltando, a outra está afirmando a harmonia!

Essa é uma dica poderosa para nós compositores!!!

Na segunda parte da segunda seção, faremos a mesma abordagem anterior, só que usaremos outras notas iniciais, justamente para que no fim a resolução seja mais assertiva:



Escute como ficou nossas inserções iniciais:



É claro que essa sequência de escolhas são apenas suposições minhas…

Não estou supondo que Beethoven realmente tenha pensado da maneira que exponho aqui.

E nem que estas soluções são, de fato, aquelas que devemos adotar em nossas construções melódicas.

Não leve isso tudo a ferro e a fogo.

Faça também suas análises e tire suas próprias conclusões!

Mas perceba o quanto podemos aprender apenas com algumas análises e observações.


Mas voltando...


Quarto Passo


Uma vez que construímos toda a casca da nossa música, precisamos agora dar uma dinamicidade maior na música.

Se você conhece esta sonata (Sonata N.1, Op2, quarto movimento, de Beethoven), vai saber que ele faz uso direto (ostinato) das quiálteras para o acompanhamento melódico.

Por isso, faremos o mesmo aqui.

Usaremos esse quinto passo para preencher a harmonia e dar dinamicidade na nossa música (neste trecho musical) usando as quiálteras. (é claro que usaremos isso, pois foi assim que Beethoven fez. E exatamente estamos fazendo uma engenharia reversa, não?!)

Na primeira parte da Seção 1, as semínimas da mão superior (voz superior) serão substituídas pelas quiálteras, fazendo um arpejo descendente, coincidindo a batida da nota semínima com o início do arpejo, completando a harmonia:


Na segunda parte, para não ficar repetitiva, a mão inferior também fará o arpejo, só que ascendentemente, começando também na nota da melodia, como na voz superior da primeira parte.

Só que se fizermos o arpejo ascendentemente, esta irá sobrepor ao outro arpejo da voz superior (mão direita).

Então, vamos modificar o arpejo da mão direita. Colocaremos uma oitava acima, sendo que ao invés da nota inicial ser a nota da melodia, esta será a última do arpejo.

Com isso, ganharemos mais uma variação!



A voz superior, na segunda parte, teve que ser deslocada para que ambos os acordes caibam ao mesmo tempo, sendo um ascendente (voz inferior) e outro descendente (voz superior).

Bacana não?!

Só isso já criou a dinamicidade na composição musical.

E não fizemos nada demais. Apenas criamos um arpejo, preenchendo as notas do acorde que definimos inicialmente.

Acredito que nesse momento você já deve estar entendendo como estamos construindo nossa música.



Vamos continuar agora nossa segunda seção.


A mão superior vai continuar fazendo os arpejos descendentes em quiálteras. É como seria naturalmente a continuação mais esperada.

E, é claro, o arpejo afirmará os acordes já pré-estabelecidos:


Os arpejos destas quiálteras poderiam estar formando outros acordes que não os estabelecidos inicialmente.

Talvez, o próprio Beethoven tenha estipulado inicialmente outros acordes. E depois foi modificando-os de acordo com a movimentação dos arpejos.

Criando uma movimentação por grau conjunto das notas dos arpejos deixe mais fluido sua movimentação, além de trazer mais variação harmônica.

Essas são, sem dúvida alguma, decisões de nós compositores.

E, tais decisões, devemos assumir totalmente.

Vamos fazer o mesmo raciocínio anterior para a parte 2 desta segunda seção:



Agora, só falta modificarmos as notas inferiores.

Beethoven, nesse momento, também tomou suas decisões. Ele dobrou em uma oitava a voz inferior, só que em vez de tocar a oitava ao mesmo tempo, as notas são alternadas em colcheias:




Porém, quando as notas superiores dos arpejos ficaram muito próximas da voz inferior (pois aquelas vêm descendo), ele simplesmente substituiu o intervalo de oitava por uma terça, de acordo com o acorde desejado.

Como será que está soando????




ENFIM!!!!!!

CONSEGUIMOS!!!!

Ops......

Peraí.....

Beethoven ainda não ficou satisfeito com isso, e como Beethoven é Beethoven, ele ainda fará algumas pequenas mudanças, mas substanciais mudanças!



Quinto Passo


Beethoven não ficou satisfeito com essa forma quase mecânica que fizemos.

É bem verdade que está muito interessante.

Fizemos um bom trabalho, mas ele quer mais... ele quer um ÓTIMO, EXCELENTE, MAGNÍFICO TRABALHO!!!!!!

Por isso, ainda temos que dar uma mexida aqui e ali.

Veja abaixo o resultado final, que é aquele que está na sonata.

Assinalei o que foi alterado, e explico em seguida suas possíveis decisões:


O som final em MIDI fica:

 

Explicações das pequenas alterações realizadas, com suas possíveis justificativas:

*1 : Suprimiu a primeira nota da quiáltera.

*2 : Preferiu deixar a nota superior em semínima, firmando a nota de resolução do fá# do arpejo anterior, e decidiu arpejar a voz inferior, para não quebrar o ritmo da música.

*3 : Essa alteração foi bastante interessante. Transformou de IVm para Nap7 (na verdade, na segunda inversão). Provavelmente, essa decisão foi pelo fato de manter a descida do arpejo mais suave. Se fosse fá, o arpejo teria suas 3 notas alteradas. Então, dessa maneira, apenas 2 notas foram alteradas, sendo que uma destas já foi tocada no arpejo anterior, e a outra é como uma antecipação. Essa decisão é muito interessante de você perceber e assimilar.

*4 : Essa alteração é bem interessante, e não teria uma explicação muito razoável além desta: forçar a sensível (si) para dó, e ao mesmo tempo como há alteração de 2 notas (lá natural e fá sustenido), talvez tenha preferido deixar uma dessas alterações no meio do arpejo, como um modo de suavizá-lo.

*5 : Essa é fácil! Sem perder o ritmo, faz ligação para as notas mais agudas. É uma conexão.

*6 : É a mesma alteração da *3. Manteve a mesma harmonia (Napolitano)

*7 e *8: Essas duas alterações servem como um reforço cadencial. Deixa o som mais “encorpado”, forte, para a finalização de toda essa parte musical!!!



Foi muito interessante e gratificante realizar esse estudo.

Espero ter conseguido mostrar aqui alguns princípios de construção fraseológica de uma música.

São princípios de como se compõe uma música.

Como compor uma música depende não só da imaginação de como fazer uma melodia, mas também do quanto podemos manipular todos os aspectos musicais ao nosso dispor.

E quanto mais estudarmos e analisarmos, mais temos bagagens e ideias para criarmos nossas próprias músicas.

Faça um teste com você mesmo. Crie uma melodia simples (pequena, para começar) e tente recriar os princípios expostos aqui.

Conheça outros posts que tratam sobre Técnicas e Métodos para a Composição Musical.

Boa Composição!

Abraços,

Carlos Correia
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