A Importância da Análise Musical para a Composição e Interpretação - Parte II: da Análise para a Interpretação

PARTE II: da Análise para a Interpretação



Você sabe qual é a importância de uma Análise Musical para você compositor/arranjador ou para você intérprete (cantor ou instrumentista)?


No post anterior, eu comecei a falar sobre a importância que se tem do intérprete em realizar a análise musical sobre uma obra, de modo que ele, o intérprete, consiga entender realmente a intenção do compositor, e como aquela obra pode ser melhor interpretada para o deleite dos ouvintes.

E, baseado nisso, há um texto incrível do artigo que exponho aqui:

ROTHSTEIN constata a importância das escolhas feitas pelo performer:
"É  o performer quem  controla  o  caminho  no  qual  virtualmente  cada aspecto  do  trabalho  é transmitido  para  o  ouvinte.  Que  aspectos  da música são “transmitidos”, quais são ocultos, quais são reconhecidos por falarem por si mesmos – estes são apenas algumas das decisões que  o performer deve  tomar.  Determinar  quais  são  estes  aspectos  é tarefa  da  análise – a análise  é mais  bem realizada  quando  contém  a combinação de intuição, experiência e razão."


O texto a que me refiro, como explicitado na Parte I, é a dissertação "PRELÚDIOS TROPICAIS DE GUERRA-PEIXE: UMA ANÁLISE ESTRUTURAL E SUA PROJEÇÃO NA CONCEPÇÃO INTERPRETATIVA DA OBRA", de MARGARETH MARIA MILANI, para a Universidade Federal da Bahia.



Atenção: se começar a ler esse post sem ter concluído o anterior, é bem provável que algumas ideias fiquem desconexas. Portanto, sugiro fortemente, se ainda não o fez, a leitura do post anterior:




Continuemos a explanação...

Logo em seguida, no texto original, é citado que para alguns autores a análise está implícita quando o músico interpreta uma obra.

E que também a análise nunca pode ficar acima da própria obra musical, numa possibilidade de engessar uma interpretação devido a ficar rigorosamente presa a análise.

Por isso, é levantada uma questão:

Há uma interpretação ideal? E esta é conseguida através apenas de análise?

Na minha opinião, não há apenas uma interpretação ideal.

Até mesmo a ideia original do compositor pode ser sucumbida pela própria interpretação do músico. O próprio músico pode dar, dentro da sua interpretação, ênfase e nuances da música que nem mesmo o compositor "compreendera" em sua obra!
ARROJO  define  o  processo  performático  como  um  processo  das  relações possíveis  entre  leitura  da  obra  musical  e  interpretação,  interpretação  e  recriação, onde o intérprete se define como um recriador. “A partir do reconhecimento de que há  pelo  menos  um  outro  autor  a  habitar o  texto  musical  no  processo interpretativo, acaba-se  por  desmistificar  o tradicional  esforço de fidelidade absoluta ao original”.(apud LABOISSIÈRE, p. 109)

E é por isso que alguns autores veem a análise como um suporte para a melhor interpretação:

COOK propõe resolver o embate entre Análise e performance fundamentando as questões: “o que a análise pode nos dizer”, “o que faz de uma análise boa e outra ruim”, “boa em que sentido?”, “boa para que?” (p. 215)

E o que dizer então sobre a música propriamente dita?

(..) LIMA  enfoca  que  a  música,por  ser uma   arte   não   representativa,   revela   em   seu fazer artístico   comportamentos cognitivos altamente subjetivos e por vezes não traduzidos para a linguagem verbal: "É uma  arte  multidisciplinar  por  excelência,  uma  vez  que  se  conecta com outras linguagens e outros saberes, no intuito de expressar a sua dimensão sintática, semântica e pragmática. Para a sua compreensão e  execução  ela  se  apropria de  elementos  diversos  assimilados  de outras áreas de conhecimento, [...] e de outras ciências, com o intuito de desenvolver aptidões físicas, mentais e psicológicas que interagem não  só  no momento  da  execução  e  do  aprendizado  musical  como também,  na  formação  harmoniosa  da  personalidade  humana.  (p.26-27)"

Então continuamos com o mesmo problema: como se dar a melhor performance? Como o intérprete precisa atuar ou proceder para que haja uma busca pela melhor interpretação?

A autora então cita uma proposição:
Diana  SANTIAGO  constata  a  escassez  e  a  necessidade  da  ampliação  de estudos  na  área  de performance  musical  a  fim  de  se  compreender  melhor  o  modo como  são  elaborados  os  planos  de  performance  pelos  músicos.  (p.1) A  autora também enfoca a necessidade de construtos teóricos pelos performers: "É   necessário   que   os   músicos   práticos   construam   seu   próprio referencial  teórico,  sem  perder  de  vista  que  ele  estará  sempre  em processo de fazer-se – ou se firmará como dogma científico, selando a morte do saber.(p. 116)"

Talvez, se ainda não há, deveria existir uma cadeira acadêmica-teórica-prática para a função de interpretação.


Há uma importância de se conhecer as teorias musicais para se ter a ideia da abrangência  do que se pode extrair de uma música. Conhecer suas partes e o seu todo!
Janet SCHMALFELDT, (...) Sob  seu  ponto  de  vista  fazer  interpretações envolve   a   interação   de   todas   as   dimensões   musicais “motivo,  idéia,  frase, progressão  harmônica, cadência,  ritmo,  compasso,  textura,  condução  de  vozes, dinâmica, instrumentação, plano tonal geral”. É importante reconhecer que a forma da música não pode ser separada de seu conteúdo.

O conhecimento explícito e implícito leva ao intérprete a fazer suas devidas escolhas:
Fazer  escolhas  dentre  várias  possibilidades  é  uma  parte  importante de  qualquer  espécie  de  interpretação,  tanto  na  análise  quanto  na performance.  Mas  em  contraste com  esse  caminho  no  qual  decisões analíticas  são  muitas  vezes  consideradas,  decisões  de  performance sugerem  que  muitas  (ainda  que não  todas)  possibilidades de escolha não  são  o  'certo'  ou  'errado',  mas  simplesmente  como  diferentes, conduzindo a perspectivas variadas. (apud LESTER, p. 211)

Fazer escolhas nem sempre é fácil.

Mas quando estamos acolhidos com conhecimento base no assunto, uma escolha pode ser referendada muito mais facilmente.

Mesmo que mais tarde possamos nos arrepender daquela escolha, esta sempre nos servirá de aprendizado para futuras decisões.

Aprendemos sempre com nossos erros e acertos:
No 'campo dos saberes' um eterno embate se faz presente entre os diversos domínios  do  conhecimento  humano.  Nas  relações  entre  análise,  interpretação  e performance  musical  o  foco  não  é  diferente.  As  tarefas  ora  se  completam  ora  se contradizem.

Nesta  perspectiva  não  podemos  buscar  respostas 'verdadeiras',  mas  sim, significados  que ao  menos calem parte  dos  anseios  que  afligem os  musicistas.  A reflexão  em  torno  das  práticas  musicais  possibilita  novos  caminhos,  ainda  não trilhados,  escolhas  referendadas  que  tornem  o  fazer  musical  consciente.  Simbiose, fusão, questionamentos e expectativas.

Assim sendo, temos na análise um apoio para nossas decisões.

E, quanto maior a qualidade das análises feitas por nós, como a maior experimentação de nossa parte - digo, abrangência-, vamos moldando nosso conhecimento e cada vez mais facilidade no processo do entendimento da obra, e assim uma maior facilidade de escolhas.

É bem verdade que ampliamos também a gama de escolhas.

Se antes tínhamos apenas um caminho conhecido para percorrer um trajeto, aos poucos vamos ganhando mais e mais opções de trajetos.

Esse aumento de possibilidades de escolhas nos traz o benefício da dúvida das opções que temos em mãos. Não ficamos mais limitados a uma única ou poucas opções.

Por outro lado, decidir por qual escolha pode ser uma tarefa árdua para qualquer um.

Mas a decisão também recai no que queremos conseguir no final das contas, e assim a análise também se mostra eficaz, pois podemos não só analisar a obra que será interpretada, tocada, mas também o que nós já temos feito até o momento. Olhar para o passado para saber o que já consegui realizar e o que ainda não consegui.

Ultimamente, essa abordagem tenho feito comigo mesmo.

Tento analisar alguma obra de terceiros e reconhecer algum aspecto dela que eu ainda não tenha feito em minhas obras, ou que não me aprofundei, testei, assimilei.

Mesmo que em um primeiro momento não veja tal aspecto sendo reproduzido em minha música, certamente minha percepção musical aumentou, e talvez em alguma obra futura isso possa vir a acontecer, até de modo inconsciente da minha parte.

Esse olhar crítico e essa análise retroalimentada pode ser útil para florescer novas ideias e novos rumos que posso tomar em minhas músicas.


Do mesmo modo, podemos trazer para o intérprete.

Assim sendo, a análise continua sendo um ferramental importantíssimo para nós músicos! Tanto compositores quanto instrumentistas e cantores. E quiçá até para produtores musicais!

Podemos   encontrar   na Análise   um dos canais para   inter-relacionar   os elementos
musicais  contidos  no  texto,  sua  interpretação  e  a comunicação musical através da performance. A Análise possibilita ao intérprete romper com  modelos de expressão pré-estabelecidos, de concepção de unidade formal, possibilitando o uso de novas propostas timbrísticas, efetivando potencialmente o processo de criação na interpretação e na performance: "Há  determinados  pontos  na  dinâmica,  no  tempo,  na  estrutura  formal que  são  verdadeiros  “buracos”  sem  fim  de  questões.  Devemos justamente procurar nessas lacunas algumas idéias novas: é aí que a pesquisa, a interpretação e a análise devem questionar a realidade do 'físico'.(HESPOS, p. 20)"
E em seguida:
Os  benefícios  da Análise  são  discorridos  em  inúmeros  artigos  e  encontros sobre Música. Sua efetividade no desenvolvimento do "saber-fazer" do instrumentista pode ser mensurada através da pesquisa.

Em  GUBERNIKOFF  encontramos  a  afirmação  de  que “a questão  da  análise musical é central em toda discussão sobre pesquisa em música”. (p. 136)

ASSIS  comenta  que “sendo  a  análise  uma  atividade  de 'desfazer  a  trama', então  ela  é  uma  atividade  que  realça  estas  relações  nos  colocando  em  contato íntimo com a obra”.(p. 84)

Seria então a análise musical o remédio necessário para a cura do "como fazer"?

A minha opinião é que realmente a análise é um remédio, dentre outros, que ajuda e nos fortalece o saber do "como fazer".

É como um exercício diário que nos tonifica a musculatura.

Quem corre sabe que é necessário se manter correndo por diversos dias antes da corrida.

Manter a musculatura e todos os órgãos sadios para um melhor aproveitamento não discorre de uma hora para outra. É necessário esforço e persistência!

Acrescento aqui as palavras contidas no texto para expressar o que quero dizer:

Analisar  uma  obra  é  uma  tarefa  complexa,  pois  requer  referencial  teórico amplo  e
muitas  vezes  indisponível.  O  próprio termo é  objeto  de  discussão  em relação  à  visão  de  mundo  do  analista,  podendo  ser  visto  sob  diversas  óticas  e parâmetros.

CORRÊA  declara que  o processo  analítico  pode  ser  compreendido  em  duas etapas  básicas:  a  identificação  dos  diversos  materiais  que  compõem  a  obra  e  a definição,  constatação  e explicação  da  maneira  como  estes  materiais  interagem fazendo a obra 'funcionar': "Análise é entendida como o processo de decomposição em partes dos elementos  que  integram  um  todo.  Esse  fracionamento  tem  como objetivo permitir  o  estudo  detido  em  separado  desses  elementos constituintes,  possibilitando  entender  quais  são,  como  se  articulam  e como foram  conectados de  modo  a  gerar  o todo  de que fazem  parte. Justifica-se  esse  procedimento  por admitir-se  que  a  explicação  do detalhe sobre o conjunto conduz a um melhor entendimento global.(p. 33)"

Para  KOELLREUTTER analisar  é  o “ato  de  examinar  minuciosamente  e criticamente a obra musical”,(p. 14) enquanto o compositor Hans-Joachim HESPOS afirma que: "...analisar corretamente  significa  buscar  não  só  o  que  se  encontra por trás da partitura, dos signos, do discurso, mas também aquilo que está  subliminar  na  própria  idéia  que  fazemos  da  Música  e  suas manifestações ...(p. 108)

Segundo PIENCIKOWSKI: "Analisar uma obra é lê-la no sentido amplo do termo, isto é, esclarecer um diálogo com ela, procurando em seu interior os elementos que nos interrogam e que nos parecem mais significativos. (p. 63)"

Sim.... Analisar não é fácil.

Requer horas de estudos, de dedicação e orientação.

Além disso, ainda há lacunas subjetivas que nem sempre teorias e teóricos chegam a um consenso.

A teoria sempre está atrás daquilo que foi feito, e não ao contrário. Isto é, a teoria é sempre formulada para tentar atender e explicar o que foi ou está sendo feito.

É claro que baseado em uma teoria, podemos chegar a conclusões, ou melhor, traçar novos rumos para novas finalidades.

Por exemplo, o estudo da harmonia tonal fez com que surgisse uma harmonia atonal (se é que poderíamos chamar de harmonia).

Assim, uma nova formulação de antítese, o mundo atonal, foi proposto e então novas obras começaram a ser compostas para atender tal finalidade: o dodecafonismo é um exemplo em que a teoria surgiu antes do processo criativo, já que ocorreu um estudo para que ocorresse uma negação da tonalidade baseada em alguns princípios.

Mas não é isso que ocorre em um mundo natural.

As diversas propostas de abordagem da Análise, correntes, modelos, podem permear  a  prática  musical  do  intérprete  de  maneira  que  este  costure  a  obra,  quer pela   observância   da   constância   de   ocorrências,   quer   pela   singularidade   dos contrastes. Na reflexão de GERLING, "Analisar  pode  significar  a busca  de  uma  consciência  interpretativa  no que   se   toca   e   se   ensina,   e   que   permite   estabelecer   níveis hierarquizados   de  intenção,    contenção   e    ação,    ou    seja,    no ordenamento de impulsos, direcionamento e dinâmica. (p. 5)"

Como citado também no texto, Bent sugere que é de difícil de se definir a fronteira de uma análise, e que esta transcende os meios teóricos para se chegar a alguma conclusão, ou as "verdades" inerentes a uma obra.
...como  de  fundamental importância o ponto de contato entre a mente e o som musical, ou seja, a percepção musical. 

Aliás, ele, Bent, cita até que não há uma "verdade" a ser buscada na obra, pois ainda depende do observador, o analista, que se debruça sobre a obra.

Termino, porém, com um pensamento do grande Schoemberg, presente no texto:
Analisamos  por  que  não  estamos  satisfeitos  com  a  compreensão  da natureza,  efeito  e  função  de  uma  totalidade  enquanto  totalidade,  e quando  não  somos  capazes  de  remontar  com  exatidão  aquilo  que separamos,  começamos  a  não  fazer  justiça  àquela  capacidade  que nos  deu  a  totalidade  juntamente  com  seu  espírito,  perdendo  fé  em nossa   melhor   habilidade – a   de   receber   uma   impressão   total. (SCHÖENBERG apud LIMA, p. 149)



Gostaria muito de que você leitor buscasse a obra, a que estou me referindo, para lê-la.

Peço que não fique apenas por aqui, em meus textos, mas também complete seu conhecimento com a leitura do artigo, e a pesquisa de mais materiais na internet, ou mesmo com apoio de algum profissional ou alguém do ramo.

Com esses dois posts, pretendo mostrar a você a importância de se aprender a analisar obras musicais, seja ouvindo-as ou se debruçando na partitura, e então tirar conclusões por você.

É claro que saber o que queremos analisar, e o objetivo desta, é fundamental para traçarmos uma estratégia e termos as respostas.

Precisamos formular, então, perguntas do que queremos extrair de uma obra.

Tais perguntas nortearão o que precisamos apreender sobre uma obra.

Ter conhecimento de uma base teórica é algo mais do que necessário para ampliarmos os nossos horizontes.

Não sendo assim, você estará limitado a poucas possibilidades e possíveis trajetos. Suas respostas serão quase sempre as mesmas!

Criar um repertório maior e mais diversificado amplia e expande seu universo. Traz enormes benefícios a você intérprete e ou compositor.

Desde jovem, mesmo sem ter uma base teórica forte e completa, pude analisar de minha maneira as músicas, compreendê-las em muitos termos.

Mas nunca havia alcançado o que a base teórica, buscado por mim, me proporcionou.

Mesmo sem ter tal base teórica e analítica, pude compor diversas músicas. Algumas delas até aproveitáveis em seu todo, outras apenas parcialmente.

Mas quando acrescentei em minha formação a base teórica, a base crítica, e a gama de análises musicais, minhas composições deram um salto enorme em qualidade e diversidade!

E até pude pegar aquelas minhas músicas iniciais, que haviam elementos apresentáveis, e transformá-las naquelas como que eu realmente gostaria que tivessem nascidas.

Somente aqueles que praticam a análise consistentemente sabem realmente da importância que estou pregando aqui.

É, como já exemplifiquei, como o corredor que treina todo dia e não sente mais a dificuldade daqueles que pouco ou nunca treinam.

Também não estou aqui dizendo que a partir de agora você precisará esquecer sua vida e todo santo dia você irá analisar uma obra. Não é isso!

Mas procure, de agora em diante, ao escutar uma música, colocar seus ouvidos e seu cérebro atentos a análise musical.

Faça isso por você! E verás, gradativamente, uma mudança cultural.

Quero muito ouvir sua opinião de tudo que foi exposto até aqui. E o quanto todo o texto pode ter impactado você.

Coloque seu comentário aqui, e não deixe de ler a obra referida por completa AQUI!


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