Passo a Passo: Como Compor um Coral à Cappella (ou Capela) no Estilo Bach (Parte 3)




Você já pensou em compor um coral?

Por que não começamos a criar um coral no estilo Bach?

Em primeiro lugar, você precisa entender como é a estrutura e as características de um coral de Bach. Se você ainda não viu minhas postagens anteriores, dê uma olhada antes em:





É muito importante você ver antes as postagens acima.

Se ainda não viu, dê uma pausa na leitura aqui e acesse as duas partes acima, e depois volte aqui. Será melhor para você.

Vamos prosseguir!

Uma composição coral é composta por 2 partes, o texto (a letra da música) e as melodias das vozes.

Aqui, a letra é que dá toda a estrutura do que e como devemos compor nossa música.

Lembre-se, em uma música cantada é a letra que dá o norte, a direção da música...

Como você viu nas postagens anteriores, um Coral no estilo de Bach tem toda uma peculiaridade característica. Não é só de Bach, mas da época Barroca em si.

Então, vamos à prática.


Escolhendo a Letra


Primeiro, escolheremos a letra.

Eu poderia escolher uma letra em Latim ou em Alemão, para ficarmos mais próximo do estilo de Bach, mas como pretendemos aqui explicar o melhor possível de forma didática, vou escolher uma letra em português e de preferência uma letra Sacra.

Na minha época como estudante, eu criei algumas músicas com a letra do Hinário Adventista (HA), e achei as letras bem simples e bacanas para o nosso propósito.

Se você quiser, pode ver o que criei àquela época:



Vamos usar uma parte do HA 104 (se este número estiver errado, por favor, comentem abaixo):

Se fraco estou, em tentação, 
Poder me vem de Tua mão 
Se busco a Ti em oração, 
Jesus, senhor amado!


Escolhi essa parte por dois motivos:


  1. Pela primeira frase, onde se apresenta 2 palavras interessantes: fraco e tentação
  2. E pela última frase (Jesus, Senhor amado!) onde me levou de cara a criar uma espécie de afirmação... vou mostrar a vocês.

Com o motivo 1 acima, me traz na mente a escolha da tonalidade em modo menor, e justamente porque o modo menor traz um quê de melancolia, tristeza, depressão, insegurança, e outros adjetivos... O que casa muito bem com as palavras destacadas acima: fraco e tentação.

Uma vez escolhida a letra, vamos agora pontuá-la.


Pontuando (acentuando) a Letra


Vamos colocar acento para enfatizar as sílabas fortes, e vamos fazer isso colocando o acento agudo quando não houver outro acento.

E por que devemos acentuar as sílabas?

Porque precisamos casar cada sílaba forte da palavra com a posição forte do compasso musical.

É aqui que muitos erram ao criar sua canção musical. Muitas e muitas vezes percebo a colocação de sílabas fortes nas posições fracas metricamente.

Mas isso estaria errado? Não. Nada na arte, a princípio, esta tecnicamente errado.

O que acontece é que ao se colocar uma sílaba forte em uma métrica fraca, ou vice-versa, traz um efeito musical, uma característica que muitas vezes o aluno ou mesmo o suposto compositor não sabe lidar com aquilo.

É como um padeiro que ao fazer um bolo de chocolate resolve colocar algum ingrediente que ao invés de realçar o sabor, faz justamente o contrário.

E se não for essa a intenção, o bolo não será agradável...

O mesmo acontece com a música. Se o compositor não souber lidar com os "temperos", ou as "cores", musicais, sua música terá grande chance de não ser agradável ao nosso ouvido... Ele acreditará que está inovando, ou transcendendo, mas na verdade, está desandando... E isso é muito comum!

Ainda há a questão do estilo musical. Isto é, na maioria dos estilos musicais se espera a sílaba forte com a métrica forte. E em outros estilos, o contrário, ou seja, a sílaba forte na métrica fraca, pelo menos em algumas partes musicais.

Por isso, conhecer o estilo musical que estamos propondo a compor é, antes de tudo, conhecer tais características, tais peculiaridades. E devemos segui-las.

E como conhecer as características de um determinado estilo musical??? Escutando e analisando muito tais músicas!!!

Voltando para a nossa tarefa, o estilo musical proposto aqui exige a metrificação forte: sílaba forte, na posição métrica forte do compasso. E por isso, para nos facilitar didaticamente, vamos acentuar as sílabas mais fortes de cada palavra.

Veja como fica a letra da nossa canção escolhida abaixo:

Se fráco estóu, em tentação,
Podér me vém de Túa mão,
Se búsco a Tí em oração,
Jesús, senhór amádo!


Não é obrigatório você fazer sempre isso, mas ajuda e muito.

Você também pode ver que algumas sílabas (monossílabas) não estão acentuadas, como as palavras: se, em, me, de, a.

Isso porque não vejo tais palavras como sílabas importantes em suas frases. Apenas como sílabas de passagem e conexão.

Como já estou acostumado a compor um coral, quando eu comecei a acentuar as palavras, já me veio uma melodia, e onde eu devo dar ênfase, isto é, que sílabas e palavras devo dar força e destaque na melodia.

Mas uma coisa é a intenção, a outra é o que conseguimos fazer na prática.

Mas vamos com calma. Uma coisa de cada vez. Vamos passar para a etapa seguinte.


Escolhendo a Tonalidade

Como eu já dei uma dica anterior, escolhi uma tonalidade menor, e escolhi a tonalidade Lá menor. Não pergunte o porquê, mas foi a primeira tonalidade que me veio na cabeça.

Talvez influenciado pela ideia de ter menos acidentes (bemois e sustenidos) ficando mais fácil explicar didaticamente...

E vamos fazer o que é de praxe, começar em Lá menor e terminar toda a estrofe em Lá menor,  como se fosse uma letra completa. OK?!


Am - xxxxx - Am


Não vou escolher ainda as regiões modulatórias, o que já poderia fazer aqui, pois primeiro quero criar a melodia, para, depois, baseada nas notas definir as regiões.

Próxima etapa....


Separando as Frases Principais

A estrofe já está bem dividida, não vou mexê-la. Então, teremos:

Frase 1 => Se fráco estóu, em tentação,
Frase 2 => Podér me vém de Túa mão,
Frase 3 => Se búsco a Tí em oração,
Frase 4 => Jesús, senhór amádo!

Repare que as vírgulas nos ajudam na separação e na respiração das frases. É claro que o ponto indica uma respiração mais forte do que a vírgula.

No segundo motivo pelo qual eu escolhi a frase acima, tem haver com o que vou fazer agora.

Vou criar mais uma frase (frase 5), repetindo a frase 4, numa espécie de reafirmação dos fiéis cantando:

Frase 1 => Se fráco estóu, em tentação,
Frase 2 => Podér me vém de Túa mão,
Frase 3 => Se búsco a Tí em oração,
Frase 4 => Jesús, senhór amádo!
Frase 5 => Jesús, senhór amádo!

Repetindo, não sei se será exatamente assim, apresentado acima, que minha melodia final se dará. Pode ser, como imaginei agora, que a última frase poderia ser assim:

Senhór, Jesús, Senhór Amádo!

Ou seja, incluí a palavra Senhor antes do início da frase.

Isso pode ser considerado uma licença poética para que ao mesmo tempo a música fique à mercê da letra, e a letra em união com a música à mercê da sensação emocional, dramatúrgica. OK?!

A ideia de expressar Senhor, antes, indica uma forma de suplício, de querer se afirmar na fé, mesmo estando fraco e em tentação.

Lembre-se, é uma música sacra, e devemos imaginar um coro de fiéis cantando.

No final da frase 4, a minha intenção é criar uma cadência deceptiva ou uma cadência dominante. Não vou escolher agora. Deixe-me escolher quando como analisar a melodia.

Já no final da frase 5, a cadência será autêntica (V-I), porém o acorde final (I) estará em picardia, tal qual era feito naquela época.


Vamos prosseguir...


Escolhendo a Métrica do Compasso

Essa é uma parte nada fácil de se escolher quando ainda não temos uma melodia formada, ou algo que nos traga uma métrica já pré-definida.

Se por acaso gostaríamos de fazer um minueto, a métrica de compasso já nos vêm como um compasso ternário, por exemplo: 3/4.

Uma marcha, já viria um compasso binário simples: 2/4.

E assim por diante.

Mas não é fácil escolhermos uma métrica se não temos nada estipulado previamente.

Então, a ideia é estipularmos inicialmente uma métrica e tentarmos criar uma melodia sobre ela, e se a melodia criada pedir outra métrica, então trocarmos.

Mas os acentos das frases já nos podem dar algumas dicas.

Vamos substituir as sílabas fortes e fracas pelos símbolos: F (forte) e f (fraco).



Vamos colocar em uma tabela tentando alocar as partes comuns de todas as frases:




De cara, podemos extrair duas informações de cada frase acima:

  1. Todas as frases começam com f (fraco), isso nos dá uma pista para começarmos com anacrusa.
  2. Quase todas as frases estão compostas em 2 partes, onde há uma vírgula separando-as no meio.
  3. A frase 1 e 3 tem suas métricas iguais!

O item 1 acima é muito forte para ignorarmos. Então, vamos compor começando a frase em anacruse.

Já o item 2, podemos dividir a frase ao meio na melodia, o que nos obrigaria a ter que recontar as frases, ou considerar apenas que a nota que sustentará as notas nessas posições estarão em uma posição Forte e com uma certa ênfase, mas não o suficiente para ser considerado uma pausa.

O item 3 nos dá uma pista que muito provavelmente iremos repetir o contorno melódico, ou parte dela, da frase 1 na frase 3. Não será um ritornello, pois a frase 4 é ligeiramente diferente da frase 2, mas talvez algum tipo de repetição não literal...

Se olharmos a primeira frase, temos, a partir do primeiro tempo Forte, o seguinte: F-f-f-F-f-f-f-F

A métrica, no início da frase, nos sugere um compasso ternário: F-f-f.

Mas pode ser cedo para decidir isso, somente se baseando nas métricas apresentadas pela frase.

Vou escolher um compasso ternário: 3/4.

Vamos ver como fica.

Então, teremos nossa partitura:





Criando a Melodia Principal

Até aqui, especulamos como seria a nossa futura música, mas ainda de nada fizemos.

Tudo isso é o nosso planejamento. O que é muito importante e necessário, principalmente quando a peça é grande.

Agora, vamos botar a mão na massa e construir a nossa melodia.

Sabemos, por análise das obras corais à capela de Bach, que ele dá ênfase nas notas principais do compasso, isto é, se o nosso compasso é 3/4, então a unidade é semínima.

Vamos construir a melodia baseado no que dissemos anteriormente?

Como vou seguir a ideia de uma semínima por sílaba (média), vou fazer com que todas as sílabas se encaixem na métrica e, consequentemente, no compasso.

Pegando como exemplo a primeira frase, onde temos: fFff F, fffF.

Vamos separar mais ou menos por compasso 3/4:

comp. 0 : f

comp. 1: F f f

Agora temos que resolver algumas questões, pois temos sobrando F, fff F.

O último F deve recair no tempo Forte do último compasso da primeira frase.

Nos sobra agora o miolo: F, f f f.

O F inicial cai sobre o primeiro tempo do segundo compasso. Mas o restante, os 3 fs (3 sílabas fracas) devem compor uma quantidade de compassos (ou até mesmo em 1 compasso) para resolver na cadência final desta frase.

Parece confuso?

Calma, pode soar um pouco confuso sim, mas veja a imagem abaixo para entender melhor o que estou tentando dizer:






Como posso então resolver tal problema?

Uma das possibilidades é averiguar as outras frases, e perceber como elas se comportam.

Mas uma questão a ser levantada aqui é que não definimos a forma da composição como um todo, isto é, se ela é uma forma binária, ternária, etc....

E isso é algo que poderíamos nos preocupar antes, em se tratando em uma obra mais larga e mais séria, do ponto de vista não didático.

Para nos orientarmos em primeira mão, poderíamos imaginar que a segunda frase tenha o mesmo aspecto melódico do que a primeira, para que o ouvinte reconheça um padrão, e assim seja cativado.

Vejamos a segunda frase:




Vamos separar os compassos na frase acima:




Agora ficou mais claro, pois temos que criar uma frase com 4 compassos (o primeiro compasso não é contado pois é uma anacruse).

Mas antes de fecharmos dessa maneira, precisamos colocar as duas frases lado a lado, ou melhor, cima e baixo, para vermos se realmente vai dar certo, se não vamos exagerar a prolongação das notas.


(clique na imagem se ela estiver pequena)



Hummm..... O que acham?  Nada mal.


Podemos criar uma barra de compasso no meio da frase entre as sílabas em e ten da primeira frase, e entre de e Tu, da segunda frase:




Precisamos então prolongar uma das notas nos compassos 2 e 3, ou criar um melisma, para que haja ali 3 tempos, e não 2 tempos.


Agora podemos criar a melodia principal.


Não há uma fórmula para se criar uma melodia. O que há são alguns preceitos que podem ou não serem seguidos, para que haja compreensão musical, tal como conexões, modelos e sequenciamentos, etc. Mas isso já seria papo para outro post.

Como faremos um coral no estilo que Bach fazia em sua época, em especial àqueles corais curtos à capela, a melodia deve ser simples, sem ser muito rebuscado.

Muitas vezes Bach pegava as melodias já prontas em outras obras, e as transformava em novas harmonias e novas roupagens.

Também não podemos abusar da tessitura das vozes. Ela deve ser feita para que 99% dos corais existentes possam cantar. Atente-se também para o andamento das vozes.

Abaixo, mostro a melodia que criei para as duas frases acima:



Ouça-a:




Quero chamar a atenção de vocês para a melodia criada para as duas frases:

  1. No compasso 1 (sem contar a anacrusa), eu fiz questão de reforçar a tonalidade lá menor;
  2. No compasso 2, a sílaba tou cai em um tempo forte, como já era de se esperar. Mas pela duração longa da nota, pode momentaneamente dar a impressão de uma pausa longa, como a cadência final de cada frase. Para que isso não ocorra, já que não é nossa intenção, as outras vozes deverão se mexer mais;
  3. No compasso 5, segue-se o mesmo modelo do compasso 1, só que reforçando a nota ré, que seria o subdominante da tônica. A pergunta é: cabe uma modulação para a região subdominante?
  4. No compasso 8, há um movimento em direção a nota dó. Esta nota pode ser tanto a terça de lá menor, como pode ser a fundamental de Dó Maior, que é justamente a Mediante de lá menor, região cuja força de atração no modo menor atua bem forte. Novamente, a pergunta é: voltaremos para a região de lá menor ou modularemos para a região de Dó Maior?



Muitas vezes já poderíamos definir as modulações que ocorreriam em nossa música. Vamos seguir criando a melodia principal (soprano) e ver o que podemos fazer.

Outra coisa que eu percebi ao escutar tal melodia é que a melodia toda da frase 1 e 2 forma uma espécie de tema, e que precisa de uma volta das notas melódicas do início da frase 1. Isso é só um gosto pessoal.

Continuando as próximas melodias, já contando com as ideias que estipulamos anteriormente:


Em piano (MIDI):





Colocando som Voz Sintetizada (MIDI):





Pronto!

Já compomos a melodia principal de nosso coral no estilo que nosso Mestre Johann Sebastian Bach, Sebastião para os íntimos, criava.


Nesse post, nós:

  • escolhemos um texto para musicalizar;
  • analisamos a letra para termos uma métrica bem definida e encaixada com o compasso;
  • escolhemos a tonalidade para a nossa melodia;
  • criamos a melodia principal no soprano para servir de base para todo o coral;
  • e, finalmente, completamos a melodia para todo o nosso texto;
  • também não podemos nos esquecer que acrescentamos uma frase a mais, como licença poética, para o nosso pequeno exemplo.

Você pode estar se perguntando: "você sempre analisa a frase, o texto, a métrica, quando você vai compor uma música coral tal como você fez aqui?".

Todos esses passos que ensinei aqui nesse post eu o faço mentalmente.

A forma que demonstrei aqui é a forma didática para ensinarmos que devemos obedecer a métrica do texto com a métrica do compasso musical. E ainda escolhermos algumas palavras chaves do texto para nos servir de base ou inspiração.


Neste exemplo, escolhi a tonalidade menor (lá menor) devido as palavras fraco e tentação.



No próximo post, iremos continuar nosso passo a passo para a construção do nosso coral.




Tenho certeza que até o momento não há nenhum outro post ou artigo tão detalhado como esse. E é assim que costumo criar minhas postagens. Podem conferir!

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